Colóquios

ficção, filosofia, fome (de conhecimento)

A Arte da Subversão

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Grosso modo, a literatura infanto-juvenil pode ser dividida em duas grandes tradições. Claro, olhando mais de perto, daria para encontrar bem mais que duas, mas essas duas servem para descrever em linhas gerais o que as crianças e adolescentes têm à disposição nas livrarias e bibliotecas. Ambas as tradições são antigas e veneráveis – ou não seriam tradições. Não vou dizer que uma delas é ideológica e a outra não porque ambas são ideológicas. O que muda, e muito, é o tipo de ideologia apresentada e, sobretudo, os usos que se faz dela, ou que se espera que os leitores façam dela.

A primeira delas, favorita de pais e professores, é a que vê nas histórias um veículo adequado para inculcar nas mentes em formação os valores, conceitos e preconceitos vigentes na sociedade. É, no geral, uma literatura de cunho moralizante, cujas narrativas frequentemente contrapõem bons e maus exemplos, mostrando como os meninos bem-comportados são recompensados enquanto os maus garotos atraem sobre si toda sorte de desgraças e infortúnios. Não é necessariamente mal escrita, ainda que os valores literários e de entretenimento ocupem um modesto segundo plano, subordinando-se ao didatismo da obra. O paradigma desse tipo de literatura seria Chapeuzinho Vermelho (na versão de Perrault, porque as versões populares são beeem mais ambíguas): a menina que, por conta de desobedecer a mãe, expõe a si própria e aos seus familiares às forças do mal.

Uma subcategoria dessa tradição é formada por livros que se costuma classificar como paradidáticos: as histórias aqui servem de pretexto não tanto para lições de moral quanto para transmitir conteúdos educativos, complementando o ensino escolar. Boa parte da obra de Monteiro Lobato – por exemplo, Aritmética da Emília ou Geografia de Dona Benta – se enquadra nessa categoria de livros paradidáticos. Mas não confortavelmente. Lobato era um espírito livre demais para se enquadrar confortavelmente em qualquer categoria, e livros como Emília no País da Gramática, O Poço do Visconde ou História do Mundo para Crianças (que chegou a ser queimado em praça pública por um padre zeloso) dão um jeito de contestar noções longamente acarinhadas pelo senso comum, mostrando às crianças que a verdade não só está lá fora como também é muito mais complexa do que se ensina nos bancos escolares.

O que nos traz à segunda grande tradição da literatura infanto-juvenil, da qual Lobato é, indiscutivelmente, o maior representante no Brasil. Nas palavras da escritora norte-americana Allison Lurie (Don’t Tell the Grown-ups – The Subversive Power of Children’s Literature):

The great subversive works of children’s literature suggest that there are other views of human life besides those of the shopping mall and the corporation. They mock current assumptions and express the imaginative, unconventional, noncommercial view of the world in its simplest and purest form. They appeal to the imaginative, questioning, rebellious child within all of us, renew our instinctive energy, and act as a force for change.

Pense nos personagens mais marcantes da literatura infanto-juvenil e você vai ver que, em nove entre dez casos, eles pertencem à linhagem subversiva: Huckleberry Finn desafiando o preconceito racial sulista, a irreverência anárquica de Emília, Peter Pan liderando os Meninos Perdidos por uma Terra do Nunca onde a imaginação reina soberana e as boas normas de conduta não apitam nada ou Alice descobrindo – antes dos surrealistas – uma realidade mais vasta do que a compreendida pelo pensamento racional… E mesmo o décimo caso vai ser pelo menos discutível: o Pinóquio de Carlo Collodi cresce em função das experiências que enfrenta, e é isso que faz com que ele se torne um menino de verdade no final, ao contrário do desenho moralista de Walt Disney, em que o boneco de madeira é castigado, se arrepende dos seus erros e é premiado pela Fada Azul ao se tornar um modelo de bom-comportamento.

Não é por acaso que a maioria dos personagens memoráveis tenha saído daí. Livres das amarras impostas pela necessidade de se ater a um código moral ou a um conteúdo programático, os autores podem deixar a imaginação fluir livremente, criando mundos e personagens muito mais intensos, uma vez que vivem sua própria vida, em vez de servirem de porta-voz para verdades estabelecidas. E isso continua valendo para a literatura contemporânea. Até mesmo Harry Potter, não fosse pelo final pequeno-burguês (que eu não vou comentar mais para não spoilear), é estimulado e estimula os leitores a questionar tudo ao seu redor. E o que dizer de His Dark Materials, a trilogia de Philip Pullman que, no Brasil, recebeu o título insoso de Fronteiras do Universo? Em A Bússola Dourada, A Faca Sutil e A Luneta Âmbar, Pullman desenvolve uma saga épica, parcialmente inspirada em William Blake, que descreve múltiplos universos e relata a guerra de seus habitantes contra um vilão que é ninguém menos que Deus. Dá para ser mais subversivo que isso?

Dá. Os bons autores da literatura infanto-juvenil sempre encontram um jeito.

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Written by Lúcio Manfredi

13/12/2008 às 20:58

Publicado em Uncategorized

4 Respostas

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  1. Salve Lúcio, salve Fábio. Um pequeno adendo a este post: pode-se dizer talvez que os grandes livros infantis são aqueles em que as crianças agem, em vez de receber lições. Eu sou a favor de transmitir valores positivos para os leitores, mas que esses valores surjam como um possível resultado de uma aventura vivida com riscos, responsabilidades, curiosidade, excitação, porque são essas coisas que nos encantam em “Huck Finn”, “Picapau Amarelo”, etc. Os valores que aprendi com Dona Benta continuam valendo, porque eles vinham em contraponto e em diálogo com a vida livre dos garotos. Irreverência, “subversão”, desafio à autoridade também não são valores absolutos. Minha geração pensou isto e deu-se mal. Não há valores absolutos.

    Braulio Tavares

    14/12/2008 at 00:52

  2. Salve, Braulio!

    Eu não poderia estar mais de acordo. Quando me chamaram pra escrever a temporada 2007 do Sítio, fui reler a obra do Lobato, que eu não lia desde criança, e fiquei besta ao perceber o quanto sou influenciado por ele até hoje. Tá, sempre fui um “filho de Lobato”, assumido e orgulhoso (comecei a escrever por causa do Sítio do Picapau Amarelo), mas o que eu percebi na releitura é que o Lobato foi o meu primeiro contato com coisas como o anarquismo (o episódio das abelhas em Reinações de Narizinho), estados alterados de consciência (tanto em Reinações quanto O Saci), a noção de que diferentes pessoas e culturas têm valores diferentes, todos igualmente válidos, e assim por diante.

    Mas o que mais me marcou mesmo foi a atitude que ele estimula de tratar toda informação, venha de onde vier, com senso crítico. Não é simples desafio à autoridade, mas a noção de que o valor do que é dito está no que é dito, e não na pessoa que diz. Foi uma lição que eu nunca esqueci e incorporei ao meu credo básico.

    Abs.
    L.

    Lúcio Manfredi

    14/12/2008 at 10:42

  3. Salve, Braulio!

    O primeiro livro do Lobato que eu li foi A Chave do Tamanho, com uns 9, 10 anos de idade – e sabe do que eu me lembro bem? Que para mim Lobato causou uma impressão tão vívida quanto Machado (o primeiro dele que eu li foi Dom Casmurro, aos 8 anos), e que se a capa não tivesse ilustrações eu não teria me dado conta de que o livro era considerado infantil, ou infanto juvenil.

    Mas concordo. Acho que é por isso que a Emília virou um personagem tão interessante e tão querido, junto com o Sítio (pra mim o Sítio propriamente dito é um personagem, mais poderoso que a ilha de Lost).

    fabiofernandes01

    14/12/2008 at 18:16

  4. Salvem caríssimos e diletíssimos,
    Lobato é O Cara, sem sombra de dúvida. Para mim, ‘A Chave do Tamanho’ é ficção-científica de primeira, e me causou profundo assombro aos 8 ou 9 anos de idade. O Sítio é um arquétipo tão poderoso como a Terra do Nunca (não é lá a ilha de Lost?)
    Vou acompanhar muito esses colóquios e dar pitacos freqüentes, hehe.

    Sergio Kulpas

    14/12/2008 at 19:50


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