Colóquios

ficção, filosofia, fome (de conhecimento)

Sobre definições

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Uma das melhores maneiras de definir algo é por exclusão. Sempre foi muito mais fácil, por exemplo, definir a ficção científica por aquilo que ela não é – embora mesmo esse método, de alguns anos para cá, esteja ficando esgarçado, puído nas beiradas, surrado e envelhecido talvez precocemente (ou não). De qualquer maneira, como se define um conjunto-universo?

A resposta mais simples é não definindo. Usar o método de Alexandre, o Grande, ao se deparar com o nó do Rei Górgias, impossível de se desfazer com os dedos: cortou com a espada e pronto.

Mas isso não tem tanta graça – pelo menos não numa discussão que não envolva espadas e macedônios em fúria. A questão é que rotular talvez seja algo inerente à natureza humana (e aí vamos também entrar numa questão muito ambígua e polêmica: o que é natureza humana, cara-pálida? Mais sobre isso depois), não à natureza bom-selvagem de Rousseau, mas à natureza do homem social, que precisa em algum momento nomear as coisas ao seu redor, talvez porque precise se comunicar com outros de sua espécie e sinta a necessidade de dizer uma palavra que identifique a coisa, o objeto, o conceito, o ser.

Daí para as editoras classificarem romances por gênero foi um pulo. Não há nada mais difícil do que classificar algo. Ou melhor, há sim: ter que justificar o critério de classificação. Muitos autores nem se dão ao trabalho: ou nada dizem ou dizem que seus trabalhos estão além de classificações (e muito provavelmente estarão certos). Como China Miéville, por exemplo. O autor de Perdido Street Station não tem problema em aceitar a classificação de seu livro (escrito em 1999/2000 e já considerado um clássico) como New Weird, embora já tenha descrito esse romance como sendo “basicamente um mundo de fantasia com tecnologia da era Vitoriana”. Mas não recusa o rótulo.

Mas o New Weird não é o que mais está me interessando neste exato momento. Tenho lido muitos livros classificados como literatura infanto-juvenil (ou, no mundo anglo, Young Adult, ou seja, jovem adulto, quase adulto, enfim, alguém que já está com pelo menos um pé na cova da vida adulta). A saber? The Graveyard Book, de Neil Gaiman, Un Lun Dun, do próprio mestre China Miéville, The Knife of Never Letting Go, de Patrick Ness, e começando agora a ler Airman, de Eoin Colfer.

E aí eu percebo, depois de muito tempo sem ler esse tipo de livro, que eu nunca deixei de ler esse tipo de livro.

Porque aí a coisa, para usar um clichê (mas que não deixa de ser verdadeira só por ser um clichê), transcende classificações. Sabem o famoso “para todas as idades”, que às vezes soa (odiosamente) politicamente correto? Pois é, mas não é. Os livros são do tipo que eu nunca deixei de ler porque são livros BONS, com personagens CONVINCENTES, têm tramas ENVOLVENTES e COERENTES (estou falando aqui de coerência interna, não de coerência tipo FC Hard, que reza que, se a história não obedecer às leis da física, não funciona. Mas aí não tem graça, ora).

E às vezes fico me perguntando quanta coisa boa eu deixei de ler nos últimos anos apenas porque tinha o rótulo de Infanto-Juvenil ou Young Adult.

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Written by Fabio Fernandes

13/12/2008 às 16:16

Publicado em Uncategorized

2 Respostas

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  1. Que delícia ler dois bons escritores discutindo bons assuntos! Que os colóquios colem! E que durem muito e façam os autores felizes.
    beijos

    Aurora

    13/12/2008 at 18:57

  2. Grande Fábio, hao!

    Ainda do Neil Gaiman, ainda young adult, ainda com ilustrações de Dave Mckean, ainda traduzido por John Lee Murray, ainda em tempo: “Os lobos dentro das paredes” (The wolves in the walls), ainda estupendamente inclassificável, ainda extasiante, ainda corpo de delírios, ainda a perseverante, serena e ajuizada Lucy, ainda estomacal, na medida em que tudo está perdido quando os lobos saem das paredes, quando as tubas são sujas de geléias, quando os recordes de video-game são pretensamente quebrados e a Rainha da Melanesia corta a grama do jardim, ainda assim irretocável, ainda eu recomendo: leiam essa história, antes de lerem seu rótulo.
    Abraços
    Tiago Araújo, ainda escrevendo e respirando.

    Tiago Araújo

    15/12/2008 at 15:48


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