Colóquios

ficção, filosofia, fome (de conhecimento)

A Alma Infantil da FC

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Pego o mote do Fábio e duas frases me vêm à mente. Uma entra pelo ouvido esquerdo, a outra pelo hemisfério direito, e as duas se encontram em algum ponto no centro do corpo caloso, onde alguns teólogos medievais localizavam a sede da alma. A primeira é de David G. Hartwell, crítico especializado em ficção científica: “The golden age of science fiction is twelve.” Já volto a ela, depois de elaborar um pouco sobre a segunda, que é de Cristo (Mt 18, 3): “Em verdade vos digo, se não vos converterdes e não vos tornardes como crianças, não entrareis no reino dos céus.” Para que não pairem dúvidas, é bom lembrar que, segundo o mesmo bom e véio JC (Lc 17, 21), “o reino de Deus está em vós”. Ou seja, não estamos falando de um campo de nuvens habitado por harpas e camisolões brancos, mas de uma dimensão do espírito humano que, ao menos no entender do menino Jesus, é acessível apenas às crianças e àqueles que nunca deixaram ou que souberam voltar a ser como crianças.

O que isso quer dizer? Como todos os ditos atribuídos a Jesucristo, a frase está aberta a interpretações. A usual, como não podia deixar de ser, é a de que ele se refere à inocência das crianças, esses anjos de candura, de alma pura e imaculada. Acontece que, desde titio Sig, essa visão idealizada sobre a infância deixou de colar, e eu gosto de pensar que Jay-C manjava um pouco mais da natureza humana do que Freud, mesmo que dois mil anos de distorções teológicas possam nos levar a crer no contrário. Então, fico com uma leitura alternativa, que pode até nem ser verdadeira, mas é verdadeira pra mim, e isso basta. Não, não me esqueci de Hartwell. Um pouco mais de paciência e chegamos lá. Continuemos com Freud, que definiu a criança como um “polimorfo perverso” e vamos ver onde é que isso nos leva.

Polimorfo perverso é uma dessas expressões freudianas sonoras, mas profundamente enganosas (como “inveja do pênis”, pra citar outro exemplo que fez as feministas arrancarem os cabelinhos). Faz a gente visualizar um pequeno Cthulhu, mas na verdade não é nada disso. Quer dizer apenas que o psiquismo infantil ainda não foi colonizado pelo superego e, dessa forma, a libido infantil está livre para se expressar de muitas formas, em contraste com o adulto bem-integrado, cuja vida afetiva flui apenas pelos canais sancionados pela moral e os bons costumes. Em outras palavras, a criança é como uma nuvem de possibilidades quânticas superpostas, um campo aberto de potenciais capazes de fluir em qualquer direção. Mais tarde, conforme o piá vai crescendo, esses potenciais vão sendo limitados, podados e canalizados em direção a modalidades normatizadas de comportamento, até que ele se torna mais “um dito cidadão respeitável que só usa dez por cento de sua cabeça animal” (salve, Raul!). Freud diz ainda que a criança é um metafísico nato. Para ela, tudo é novo e o mundo inteiro é um enigma, mas as questões que mais a incomodam são o tripé de toda investigação filosófica que se preza: quem somos, de onde viemos, para onde vamos.

Armados com os Três Ensaios Sobre a Sexualidade Infantil, poderíamos parafrasear Mt 18, 3 da seguinte forma: “Em verdade vos digo, se não vos converterdes em polimorfos perversos, para os quais tudo é novo e motivo de curiosidade, e que não perderam a capacidade de se espantar com o mundo, não entrareis no reino dos céus.” E então, entendemos porque “the golden age of science fiction is twelve”. Doze anos é o fim da infância, é o ponto exato de (des)equilíbrio entre a criança e a adolescência, esse mito que a nossa cultura foi obrigada a inventar simplesmente porque abolimos os ritos de passagem que marcam a mudança de fase da puberdade. (De fato, pode-se argumentar que, para muitos adolescentes ocidentais, a ficção científica – seja em filmes, quadrinhos ou livros – faz as vezes de ritual de iniciação, mas isso é assunto pra outro colóquio.) Aos doze anos, a mentalidade racional já está plenamente desenvolvida (ainda que não necessariamente amadurecida) mas, pelo menos no melhor dos mundos possíveis, o guri ainda não perdeu aquela capacidade de espanto perante o mundo que é a matriz e o combustível da ficção científica: nada menos que o sense of wonder.

Daí que, sim, como Thomas Disch reclamou tempos atrás, a ficção científica é a expressão de uma mentalidade infantil, só que, ao contrário do que ele pensava, isso não é necessariamente ruim. Alguma coisa dentro dos escritores e leitores de ficção científica estacionou aos doze anos de idade, fincou os pés nesse território liminar entre a criança e o adulto, e se recusa a sair daí. A ficção científica conserva vivo o espírito do puer aeternus, o Pequeno Príncipe que sonha voltar as estrelas e que, ao contrário do adulto plenamente catequizado, ainda é capaz de reconhecer uma jibóia engolindo um elefante, e não a confunde com um respeitável chapéu a ser usado na respeitável cabeça de um cidadão respeitável. Todos os mundos possíveis que a ficção científica é useira e vezeira em explorar não passam de disfarces, nomes de fantasia, para a Terra do Nunca, o País das Maravilhas, o território da imaginação livre – não necessariamente bela, não necessariamente idílica, utópica, mas livre.

No worst case scenario, que é o que Disch lamentava, a alma infantil da ficção científica se expressa em histórias simplórias, com personagens rasos, que dão corpo a fantasias de onipotência e gratificação. Certo, ninguém discute isso, ninguém discute que isso é ruim. Mas a moeda tem um outro lado, que é o potencial que a ficção científica oferece para nos levar ao reino dos céus.

Só que a bordo de uma espaçonave.

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Written by Lúcio Manfredi

23/12/2008 às 10:51

Publicado em Uncategorized

Uma resposta

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  1. Isso talvez explique porque alguns escritores infanto-juvenis, quando vão fazer literatura dita “adulta”, acabam voando baixo. Muito baixo.

    Alexandre

    23/12/2008 at 11:57


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